Private Clients & Wealth Management
Isenção de IRPF na venda de imóvel e multipropriedade: Solução de Consulta COSIT nº 236/2025

Neste artigo
- A lógica da isenção do art. 39 da Lei nº 11.196/2005
- A pergunta que gerou a Solução de Consulta nº 236/2025
- A resposta da Receita Federal: NÃO
- E se o financiamento da multipropriedade tiver sido feito diretamente com o vendedor?
- Impactos práticos: onde o contribuinte erra?
- Conclusão: o limite está traçado
A Receita Federal publicou, em 17 de novembro de 2025, a Solução de Consulta COSIT nº 236/2025, consolidando uma interpretação decisiva para pessoas físicas que vendem imóvel residencial e utilizam o produto da venda para quitar cotas de multipropriedade. O entendimento afasta, de forma expressa, a aplicação da isenção do art. 39 da Lei nº 11.196/2005 (Lei do Bem) nesses casos, reforçando uma leitura estrita da norma isentiva e redefinindo a fronteira entre “imóvel residencial” e “direito de uso periódico”.
Com impacto direto em transações cada vez mais frequentes — sobretudo em destinos turísticos com forte exploração de fractional ownership — a Receita delimita o que efetivamente constitui “aquisição de imóvel residencial” para fins de isenção de ganho de capital.
A lógica da isenção do art. 39 da Lei nº 11.196/2005
O benefício fiscal já é conhecido:
A pessoa física que vende um imóvel residencial e aplica o produto da venda, em até 180 dias, na aquisição de outro imóvel residencial, pode usufruir da isenção do IRPF sobre o ganho de capital.
Desde 2022, com o Parecer SEI nº 15069/2022/ME, essa abrangência foi ampliada, permitindo que a isenção também cubra:
-
quitação de financiamento de imóvel já possuído;
-
aquisição de imóvel em construção ou na planta;
-
amortização de débito remanescente junto ao alienante.
A razão teleológica adotada pelo STJ — e incorporada pelo Parecer — é clara: viabilizar a mobilidade familiar, permitindo que o contribuinte compre o segundo imóvel antes de vender o primeiro, preservando a finalidade habitacional da norma.
A pergunta que gerou a Solução de Consulta nº 236/2025
O caso concreto é típico dos novos produtos imobiliários:
O contribuinte vendeu seu imóvel e desejava utilizar os recursos para quitar financiamento de cota de multipropriedade — modalidade prevista nos arts. 1.358-B a 1.358-F do Código Civil, pela qual o adquirente compra frações de tempo de uso de um imóvel, e não a integralidade da unidade.
A dúvida:
Pode a isenção ser aplicada quando o destino dos recursos é a quitação de cota de multipropriedade?
A resposta da Receita Federal: NÃO
A COSIT 236/2025 foi taxativa.
Cota de multipropriedade NÃO é imóvel residencial para fins de aplicação da isenção do art. 39 da Lei do Bem.
A conclusão se sustenta em três pilares jurídicos centrais:
1. A leitura literal das normas isentivas (art. 111, II, do CTN)
A Receita reforça que qualquer benefício fiscal deve ser interpretado literalmente.
O art. 39 fala em “aquisição de imóveis residenciais”, não de direitos de uso rotativo.
A multipropriedade concede ao titular uso temporário, e não posse plena do imóvel.
2. Multipropriedade ≠ aquisição de imóvel
Nos termos do art. 1.358-C do Código Civil:
-
o imóvel é indivisível;
-
o multiproprietário compra uma fração de tempo;
-
há direito de uso, não aquisição da unidade.
Logo, a Receita entendeu que a multipropriedade é mais próxima de um direito real limitado do que de uma aquisição imobiliária tradicional.
3. A finalidade habitacional da norma isentiva não é atendida
A COSIT retoma a ratio decidendi do STJ:
A isenção existe para permitir que famílias adquiram nova moradia enquanto residem na atual.
Mas a multipropriedade, por natureza:
-
destina-se ao uso esporádico;
-
serve a lazer, não a moradia habitual;
-
não atende à função social que fundamenta a isenção.
Portanto, o benefício não se estende às frações de uso.
E se o financiamento da multipropriedade tiver sido feito diretamente com o vendedor?
A Receita também respondeu a esse ponto:
É irrelevante.
Mesmo se o financiamento for direto com o alienante, isso não altera o enquadramento jurídico da multipropriedade — e, portanto, não habilita a isenção.
Impactos práticos: onde o contribuinte erra?
A Solução de Consulta fecha a porta para uma tese que muitos contribuintes vinham adotando:
Aplicar a isenção do art. 39 para quitar cotas de multipropriedade por analogia, sob o argumento de que se trata de “imóvel residencial”.
Com a posição da COSIT:
-
qualquer ganho de capital decorrente da venda do imóvel residencial deve ser tributado;
-
a alíquota progressiva de 15% a 22,5% se aplica normalmente;
-
operações estruturadas para aquisição de multipropriedade deixam de ser elegíveis ao benefício.
Empreendimentos imobiliários turísticos que utilizam estrutura de multipropriedade também passam a demandar maior atenção contratual e tributária, pois ofertas comerciais podem induzir contribuintes a erro ao sugerir “benefícios fiscais inexistentes”.
Conclusão: o limite está traçado
A Receita Federal definiu com precisão:
Cota de multipropriedade não é imóvel residencial.
Logo, não gera isenção do IRPF sobre ganho de capital na venda do imóvel anterior.
A Solução de Consulta COSIT nº 236/2025 encerra o debate no âmbito administrativo, impondo aos contribuintes e ao mercado imobiliário a necessidade de readequar estratégias, especialmente em operações envolvendo frações de uso turístico.
