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Governança corporativa para empresas familiares: por onde começar

25/07/2025

Guilherme Chambarelli

A ausência de governança corporativa em empresas familiares não é apenas um risco futuro — é uma fragilidade presente. Em estruturas fundadas sobre vínculos afetivos e decisões informais, o crescimento costuma expor um dilema: ou profissionaliza-se a gestão, ou compromete-se a perenidade.

Ao contrário da crença popular, governança não é sinônimo de burocracia ou de fórmulas importadas do mercado de capitais. Governança, no universo da empresa familiar, é um instrumento de clareza institucional, blindagem patrimonial e preservação das relações pessoais.

Este artigo propõe uma introdução prática à governança corporativa aplicada às empresas familiares, com foco jurídico e estratégico, mostrando por onde começar — e por que o início é urgente.


A crise da informalidade: quando a empresa ultrapassa a família

É comum que empresas familiares nasçam do esforço empreendedor de uma ou duas gerações, sustentadas pela confiança interpessoal e pelo poder de decisão concentrado. O problema é que o que antes era força vira armadilha.

Riscos típicos de estruturas sem governança:

  • Decisões unilaterais sem consulta ou transparência;

  • Confusão entre patrimônio pessoal e empresarial;

  • Ausência de critérios objetivos de remuneração, sucessão ou entrada de novos familiares;

  • Conflitos entre sócios que acabam judicializados (ou pior, não ditos);

  • Patrimônio comprometido por dívidas ou disputas internas.

Governança, neste cenário, não é acessório — é condição de continuidade.


O ponto de partida: formalização e distinção de papéis

A implementação de governança corporativa deve começar pela separação entre família, propriedade e gestão. Esse é o primeiro movimento que confere institucionalidade ao negócio.

1. Acordo de sócios

Documento essencial que define regras para:

  • Deliberações e quóruns;

  • Entrada e saída de sócios;

  • Regras de sucessão e herança;

  • Distribuição de lucros;

  • Cláusulas de saída (tag along, drag along, put e call).

“O acordo de sócios é o pacto que permite que os laços de sangue não se convertam em litígios judiciais.”

2. Conselho de administração ou conselho consultivo

Mesmo que informal no início, é essencial criar uma instância que:

  • Delibere com racionalidade estratégica;

  • Reduza o personalismo das decisões;

  • Registre atas, deliberações e responsabilidades;

  • Profissionalize o processo decisório, ainda que sem romper o protagonismo da família fundadora.

3. Acordo de família

Documento extracontratual que define valores, diretrizes e limites para os membros familiares, com temas como:

  • Quem pode trabalhar na empresa;

  • Política de dividendos;

  • Conflito de interesses;

  • Papel de cônjuges e herdeiros.


Sucessão: o tabu jurídico que destrói empresas

No Brasil, mais de 70% das empresas familiares não chegam à terceira geração. E o motivo não é apenas falta de inovação ou mercado — é falta de sucessão planejada.

Uma governança bem estruturada deve tratar da sucessão com antecedência e formalismo. Os instrumentos jurídicos mais eficazes são:

  • Holding familiar com acordo de quotistas;

  • Testamento em sintonia com o acordo de sócios;

  • Cláusulas de inalienabilidade, incomunicabilidade e impenhorabilidade para proteção patrimonial;

  • Protocolos de transição de gestão com regras de avaliação e preparo do(s) sucessor(es).

“A sucessão não é um evento — é um processo. E processo sem regra vira tragédia.”


Blindagem e perpetuidade: quando o jurídico sustenta a longevidade

Governança também é escudo. Estruturas familiares frágeis são vulneráveis a:

  • Cônjuges e ex-cônjuges de sócios;

  • Herdeiros despreparados ou desinteressados;

  • Sócios minoritários insatisfeitos;

  • Credores que buscam atingir o patrimônio pessoal;

  • Conflitos não resolvidos que eclodem em processos judiciais ou dissoluções societárias forçadas.

A criação de uma holding patrimonial, com cláusulas de controle, regras sucessórias e mecanismos de governança, permite que a empresa deixe de ser “do fulano” e passe a ser uma instituição com identidade própria.


Conclusão: de legado afetivo a estrutura institucional

Governança corporativa não é sobre perder controle — é sobre não perder o que se construiu. O fundador que teme o “engessamento” da empresa precisa compreender que as regras certas não sufocam a liberdade: elas protegem a continuidade.

Empresas familiares que prosperam são aquelas que compreendem que o afeto precisa ser protegido por estrutura. E que, entre a confiança e a formalização, há espaço para ambas — desde que com técnica e propósito.

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